28 setembro, 2006

Join the Army...

(Entre para o Exercito...)

"Join the Army, go to cool places, meet cool people and kill them".
(Entre para o Exercito, va' para lugares legais, conheca pessoas legais e mate-as".

Essa frase ironica foi proferida por um dos meus colegas de casa, um sujeito liberal (no sentido politico do termo, nao no economico).

Ate' o momento, minha experiencia me permite classificar as pessoas daqui nos seguintes grupos politicos:

1) Os Conservadores Religiosos (CR) sao aqueles que acham que a "America" e' uma nacao crista e que a "Palavra de Deus" deve governar o mundo. Existe gente assim mesmo entre os mais jovens. Sao a "direita" daqui.

Em uma das minhas disciplinas, por exemplo, existem mais "criacionistas absolutos" (gente que acredita que a criacao se deu exatamente como escrito no Genesis e que nunca houve qualquer tipo de evolucao) do que "evolucionistas absolutos" (gente que acredita que a teoria da evolucao explica a vida). O maior grupo, como era de se esperar, e' o daqueles que acredita que Deus criou o mundo e a vida, mas que houve evolucao mesmo assim.

2) Aqueles que se opoem aos CR se subdividem em:

a) Defensores das "minorias" (DM). Em geral cada um tem sua minoria favorita. Para uns sao os negros, para outros os latinos, para outros as mulheres (se bem que nao sei bem como as mulheres, sendo mais de 50% da populacao, podem ser uma minoria), etc... Esse favorecimento politico geralmente e' tentado atraves da obtencao de ajuda estatal a esses grupos.

O negocio e' que os DM sao tao trapaceiros e manipuladores em suas manobras politicas quanto os CR. Por exemplo, em uma de minhas disciplinas, "Precolonial Africa", a professora passou a primeira semana insistindo sistematicamente que nao usassemos o termo "tribo" para nos referirmos 'as comunidades africanas. Tivemos que ler dois textos que defendiam essa posicao. Um dos argumentos basicos desses textos era, surpreendentemente, o seguinte: os academicos nao devem utilizar o termo "tribo" porque as pessoas leigas associam o termo "tribo" ao primitivismo e isso pode reforcar a imagem que elas tem da Africa como sendo um continente povoado por gente primitiva. Ou seja, a pesquisa academica tem que se sujeitar ao interesse politico daqueles que estao preocupados em defender os interesses das pessoas da Africa e tambem da minoria "afro-americana".

Outro exemplo?

A mesma professora nos fez escrever um pequeno artigo sobre "se o Egito Antigo era ou nao uma nacao genuinamente africana". Essa questao foi durante muito tempo polemica por razoes politicas: como o Egito Antigo foi uma das primeiras e das mais importantes civilizacoes da Historia, se "a Africa" pudesse alegar que o Egito Antigo e' um fruto legitimo da cultura africana, ficaria "provado" que o continente africano nao e' povoado por gente primitiva (claro que essa posicao nao leva em conta que talvez as pessoas que ocupassem a Africa ha' 5000 talvez ate' fossem "avancadas" para a epoca, mas se seus estilos de vida nao mudaram muito ate' os dias de hoje, e' perfeitamente possivel alegar que, para os padroes de hoje, eles sao primitivos). Muitos dos pesquisadores europeus, por outro lado, nao tinham interesse em creditar o surgimento do Antigo Egito 'a cultura indigena africana. Mesmo os egipicios de hoje nao gostam de ver o Antigo Egito como sendo "africano".

Mas o que a tal professora fez de errado? Ela nos fez escrever esse artigo sobre essa questao, mas nos deu apenas textos que defendiam a posicao de que "o Antigo Egito e' uma civilizacao genuinamente africana". Quando perguntada se poderiamos consultar outras fontes, ela disse "Nao. Apenas aquelas que lhes forneci". Assim, fomos obrigados a escrever um artigo defendendo a posicao que ela defendia; uma posicao que nao e' so' uma questao academica, mas que tem implicacoes politicas tambem. Fomos obrigados, mas nao escrevi. Hoje ela me pediu que conversasse com ela ao fim da aula:

Ela: - I noticed that you never delivered your paper.
(Percebi que nao entregaste teu artigo.)

Eu: - Yes, I never actually wrote it.
(Sim. E nunca cheguei a escreve-lo de fato.)

Ela: - Are you here just to have fun?
(Estas aqui apenas para te divertir?)

Eu (absolutamente tranquilo): - No. I am not here just to have fun, but I didn't thought it was a good assigment at all. First of all, it was really too short. It was short to the point that you really couldn't do much more than write exactly what is in the texts that you gave us. But what really made me unconfortable was the fact that you gave us just one side of the argument.
(Nao. Nao estou aqui apenas para me divertir, mas nao achei que foi de forma alguma uma boa tarefa. Para comecar, foi curto demais [1]. Foi tao curto que nao se podia fazer muito mais do que reproduzir exatamente o que estava nas fontes que nos entregaste. Mas o que realmente me deixou desconfortavel foi o fato de que nos deste apenas um lado da controversia.)

[1] 500 palavras (aproximadamente 2 paginas, com espacamento 2).

Ela (supresa, quase chocada): - I... I was just trying to make the students use some simple secondary sources, so they would just get used to do it. You have to understand that the students here are not like the students from abroad. They are not on the same level as, for example, you are. Some are, but most of them are not.
(Eu... Eu estava apenas tentado fazer com que os estudantes utilizassem algumas simples fontes secundarias, para que eles se acostumassem a faze-lo. Tens que entender que os estudantes daqui nao sao como os estudantes de outros paises. Eles nao estao no mesmo nivel que, por exemplo, tu estas. Alguns estao, mas a maioria nao esta'.)

Eu: - I got to the point where I made a sketch of it, but then I read it and realized that I really could not deliver this kind of thing with my name on it...
(Eu cheguei a escrever um rascunho mas, quando li o que havia escrito, percebi que nao poderia realmente entregar esse tipo de coisa com o meu nome...)

Ela (ainda um pouco pasma): - Ok. I can respect that.
(Ok. Eu posso respeitar essa posicao.)

Eu: - Obvioulsy, I also realized that I would get no grades in this assignment. Fortunatelly, it is a minor assignment [2]. I made a decision and I stood up for my zero.
(Obviamente, eu tambem sei que nao vou receber pontos por essa tarefa. Felizmente, e' uma tarefa menor. Tomei uma decisao e aceito meu zero.)

[2] O artigo valia apenas 10% da nota final da disciplina. Se valesse muito mais, e' quase certo que eu "colocasse o rabo entre as pernas" e entregasse esse negocio.

Ela (aliviada): - Good. Because I have no other choice than to give it to you.
(Sim. Porque eu nao tenho outra escolha que nao da'-lo a ti.)

Eu: - I know.
(Eu sei.)

Ela: - It is good that we finally cleared up the air.
(E' otimo que finalmente tenhamos acabado com essa tensao. [3])

[3] Eu nem sabia que existia qualquer tipo de tensao. Talvez eu olhe com cara feia para ela e nem perceba. :D

b) Hedonistas, gente que, ate' por nao enxergar qualquer perspectiva de mudanca, nao se opoe de forma ativa aos CR, so' desaprova as posicoes deles. Acabam por se dedicar a "curtir a vida". Dinheiro e' o que nao falta aqui para isso! E' o caso do sujeito que proferiu a frase que abriu esse "post".

3) Gente que fica em cima do muro. Podemos chama-los moderados, neutros ou indecisos. Voces escolhem! Eles sao em menor numero do que os hedonistas. Os maiores grupos sao os CR e os DM.


Por hoje e' so'! Preciso dormir...

Xau-xau, miguxos! ;)

3 comentários:

Anônimo disse...

Gu: li o seu entrevero com a professora.A posição dela é sectária. Mas a sua não será também? Por que não comentar os textos indicados e tentar mostrar que os textos não resistem à crítica? Pai

ghsartin disse...

Pai, eu pensei em fazer o que sugeriste, acredite. Ate' escrevi o que gostaria de dizer na aula a respeito dos textos. Especialmente a respeito dos primeiros textos, sobre o uso do termo "tribo".

O problema foi que ela nao deu abertura para que se fizesse comentarios e eu estaria sendo inconveniente se simplesmente pedisse para que discutissemos esse assunto.

Aqui quase nao se debate coisa alguma... :(

Quanto aos textos sobre o "Egito Antigo" africano, eles eram bons. O que nao gostei foi que ela so' nos permitiu defender uma posicao do debate.

Abraco

ghsartin disse...

Eu estava bem tranquilo e relaxado quando falei com ela.
E tom da conversa foi quase amistoso.
Mas e' possivel que eu tenha feito cara feia, sem perceber, durante a aula. :D